Um pouco de informalidade e divagação nos fazem bem em determinados momentos da vida. Portanto, decidi retomar minhas atividades nesse blog de uma forma diferente, com uma narrativa um pouco mais amena e, espero, aprazível, acerca de algumas impressões minhas sobre mais uma de minhas incursões pela obra de "Dostô", sim leitor, sinto já ter certo grau de intimidade com o autor, por mais estranho que isso possa parecer. Pois bem, passemos à descrição do meu dia e, posteriormente, ao meu encontro com o livro, ou melhor, com as últimas páginas do mesmo.
Hoje ao acordar comi um pedaço de bolo de chocolate e tomei alguns goles de suco de laranja, já imaginando como seria meu "dia dos namorados" já que esta é a primeira data fatídica em que me encontro formalmente casada! Num misto de frustração e esperança meu dia confluiu, até o presente momento, na constatação de que, infelizmente, a "data tão esperada" não passa de mais um desses dias comuns e um tanto quanto ocioso. Me atenho a alguns detalhes que podem parecer massantes ao leitor, mas que me parecem merecer ao menos uma breve descrição, permitam-me.
Após meu café da manhã, que não chegava nem perto daquele servido pela Xuxa em seu antigo programa na TV Globo, e da passada demorada no salão de beleza para repor uma cor nas unhas, cheguei em casa. Me vi então, pouco surpresa com a cena que encontrei: meu marido dormia no sofá assistindo jogo (como sabem, época de copa). Buscando uma impressão melhor, fui até a sala, dei uma olhada na Folha de SP, que nada tinha de muito animador para me oferecer em termos de leitura. Como última opção, típica escolha daqueles que vivem no "pugatório do ócio" (como chamo o momento em que vivo aqui no Rio de Janeiro) me deparei com minha leitura atrasada, uma que se arrastava por cima dos bidês do meu quarto e da mesa do escritório, passando, não raras vezes, pelo sofá. Sim, pode parecer blasfêmia, mas me compreendam, não venero praticamente nada, e os escritos de Dostoiévski por mais cativantes que possam me parecer não me tornam uma aduladora irracional das belas páginas produzidas para a editora 34.
Num gesto de esperança e de anseio por salvar meu dia apanhei o livro, no qual restavam apenas 10 míseras folhas a serem lidas. Tal qual meu dia a história se desenrolara me deixando ora frustrada ou esperançosa, pois tenho a mania de esquecer que Dostoiévski não é qualquer autor e que a riqueza de sua narrativa está justamente nela e não apenas no desfecho do romance. Adianto aqui minha impressão final da obra: como não poderia ser diferente eu adorei a leitura. Entretanto, o meu "adorar" não se resume apenas aquela sensação agitada que nos invade quando terminanos de ler um livro muito bom e que nos incita à contar para todos a história com riqueza de detalhes. Não, nem perto disso! O que senti foi mais próximo de um alívio por ter compreendido uma nova maneira de contar uma história. Senti também uma satisfação imensa por ter dado a importância necessária para cada grande cena narrada (verdadeiramente encaro a narrativa desse autor como peças teatrais embuídas de muita dramaticidade), senti também um alívio indescritível, bastante egoísta e um pouco prematuro no sentido de acreditar que a leitura salvaria meu dia.
Incrível foi perceber que repentinamente o autor descarta toda uma teia de relações criadas desde o início do texto em prol de outra completamente diferente. Caso o leitor tenha lido a obra, por favor, me esclareça, parecem ou não dois romances diferentes? Um que inicia a trama e outro que encerra, quer dizer, encerra é modo de dizer, sinto como se a história não tivesse acabado, como se apenas sofresse uma interrupção. Ouvi falar que trata-se de uma obra inacabada o que jsutificaria minha suposição. O fato é que me senti muito bem em ter participado, ainda que como sombra imperceptível, das emoções extremadas de "Anieta" (apelido carinhoso de Niétotchka).
Dostoiévski, como qualquer um poderia prever, (menos eu, que tenho a mania romântica de me iludir) não salvou meu dia, visto que após acabar a leitura, meu marido me propôs almoçar arroz de brócolis requentado e um peixe igualmente requentado no microondas (no qual quase só encontrei cartilagem). Nada surpreendente foi que após o almoço, meu "marido-namorado" voltou para o sofá, cochilou assistindo o jogo e digerindo o almoço; nesse momento é que resolvi passar por aqui e narrar a emoção que Dostoiévski me deu nesse dia dos namorados, ainda que esta durasse apenas 10 rápidas folhas.

5 comentários:
Adorei os comentários e a descrição detalhada do cotidiano com o livro de Dostoiévski> Parabéns por ser essa pessoa maravilhosa, determinada, criativa, e levar tão a sério os assuntos da nossa História com tanto afinco e dedicação. Adorei teu artigo. continua publicando no teu BLOG.
Obrigada Bete!
Olá Maitê. Então, sua suposição não é errada quanto a obra ser inacabada. Dostoiévski antes de terminar ela foi preso acusado de conspiração contra o Czar devido participar ao Círculo de Petrachévski. O romance começou a ser publicado na revista dele e do irmão Mikhail chamado Anais da Pátria em 1849. O romance como podes perceber acaba de repente quando ela completa 18 anos. O primeiro fascículo do romance foi publicado na edição de maio dos Anais da Pátria. Ele foi preciso dia 23 de abril. O livro não foi concluido e Dostoiévski não o retomou quando seis ou sete anos depois pensou em fazer a carreira literária.
Indico a leitura dos cinco volumes da biografia de Dostoiévsvki feito por Joseph Frank caso queiras se aprofundar no universo incrível de Dostoiévski que chegou a ser condenado a pena de morte e esteve na fila para ser fuzilado.
P.S. Vi seu posto na comunidade "Dostoiévski".
Abraço
Ass. João Otávio
Olá João Otávio, vou buscar as indicações de leitura, obrigada pela contribuição!
Voltei para ler o post do dia dos namorados que tu me disseste, e amei! Aliás, estás escrevendo como ninguém hein! Muito bom ler textos tão bem escritos!
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